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INTOLERÂNCIA A LACTOSE

 

Leite: vamos falar sobre a intolerância?

Antes de mais nada, precisamos diferenciar intolerância de alergia.
As intolerâncias alimentares são causadas pela dificuldade do corpo em digerir o alimento, normalmente causada pela deficiência de enzimas; elas não ativam o sistema imunológico do corpo e, em geral, desencadeiam sintomas predominantemente gastrintestinais. Nas alergias alimentares, no entanto, o corpo ativa seu sistema de defesa (anticorpos) quando se ingere uma determinada proteína alimentar (ex.: caseína – leite de vaca, glúten – trigo/centeio/cevada, ovoalbumina e ovomucóide – ovo, cupina e conglutinina – amendoim, etc.).
Tratando-se de intolerância ao leite, estamos nos referindo exclusivamente à LACTOSE, e não a seus outros componentes, como suas proteínas (caseína, β-lactoglobulina, α-lactoalbumina). A lactose é o açúcar presente no leite animal (humano, vaca, ovelha, cabra, etc.). Para seu aproveitamento pelo organismo, é necessário que a lactose seja “quebrada” em glicose e galactose, para que então possa ser absorvida na mucosa intestinal e entre na corrente sanguínea; e, para que essa “quebra” da lactose ocorra, é necessária a ação de uma enzima, chamada LACTASE, que se encontra em nosso intestino.
Fato pouco conhecido da população em geral é que se estima que cerca de 60% da população tenha dificuldade em digerir a lactose presente no leite pela diminuição ou até mesmo completa ausência da enzima lactase. A lactose não digerida, então, não será metabolizada e permanecerá no intestino, podendo desencadear sintomas como distensão abdominal, cólica, náusea, aumento da quantidade de gases e diarreia ou constipação.

Há diferentes tipos de intolerância à lactose. Esta pode ser classificada em primária, que compreende a “alactasia congênita” (muito rara, onde nasce-se sem produzir lactase) e a “hipolactasia do adulto” (diminuição da atividade da lactase com o aumento da idade). Já a intolerância à lactose secundária pode ser do tipo “permanente” (associada a doença celíaca, doença de Crohn, colite ulcerativa) ou “transitória” (de característica temporária, pode estar associada a infecções gastrintestinais bacterianas ou virais e parasitoses).
A “hipolactasia primária do adulto” é a forma de intolerância à lactose mais comum; no entanto, sua prevalência varia entre países, tendo suas menores taxas em países como Suécia (1-7%), Dinamarca (4%) e Grã-Bretanha (5%) e suas maiores taxas entre países asiáticos, do oriente médio e africanos, onde pode acometer até 100% da população. No Brasil, a prevalência é considerada alta: entre indivíduos de raça branca e mulata, a prevalência é de 57%; entre negros, 80%; e entre japoneses, 100%.
O diagnóstico pode ser realizado de diferentes maneiras, sendo a mais comum o Teste de Tolerância à Lactose, em que se dosa a glicemia em jejum e então se ingere um preparado líquido contendo 50g de lactose; a glicemia é dosada em 15, 30, 60 e 90 minutos após a ingestão e, caso o aumento na glicemia (em relação ao valor de jejum) seja inferior a 20 mg/dL, é indicativo de intolerância; aumento de 20-34 mg/dL é indicativo de má-absorção e aumento superior a 34 mg/dL indica absorção normal. O diagnóstico também pode ser realizado através de realização de endoscopia com dosagem de lactase intestinal, pela análise do pH das fezes, pela avaliação da quantidade de hidrogênio no ar expirado e também através de teste genético.

Uma vez realizado diagnóstico de intolerância à lactose, o tratamento inicial é a exclusão de todas as fontes de lactose na alimentação (leite, leite em pó, iogurte, queijos, leite condensado, soro do leite, bem como produtos que contenham leite ou laticínios em sua composição), até que haja remissão completa dos sintomas. Neste período, o acompanhamento nutricional se faz importantíssimo, tanto para a orientação dos possíveis substitutos aos produtos lácteos comumente utilizados bem como para evitar carência de nutrientes como o cálcio, essencial ao metabolismo ósseo e à contração muscular.
A intolerância à lactose é dose-dependente, e a tolerância irá variar entre cada indivíduo. Portanto, após um período de aproximadamente 3 meses, passa-se a reintroduzir pequenas quantidades de lactose, através do consumo de laticínios fermentados como queijos, kefir e iogurtes (que são mais digeríveis por terem tido boa parte de sua lactose digerida pelas bactérias e leveduras durante a fermentação) e observa-se a tolerância e surgimento de sintomas com o consumo, estipulando-se assim, um “limiar” de tolerância. Estima-se que a maioria dos indivíduos intolerantes à lactose tolerem bem até 12g lactose/dia (quantidade contida em cerca de 250 ml de leite de vaca, por exemplo); no entanto, a tolerância deve ser avaliada e testada individualmente e, preferencialmente, com acompanhamento profissional.

Alternativamente, poderá ser feito uso de produtos lácteos “Zero Lactose”, que nada mais são do que produtos aos quais se adicionou a enzima lactase. Também pode-se recorrer ao uso de cápsulas ou sachês de lactase, encontrados à venda em farmácias, que deverão ser ingeridos 30 minutos antes do consumo de alimentos contendo lactose; sendo que a dosagem ideal irá depender da tolerância individual e da quantidade de lactose que estará sendo ingerida no momento.
Se você não se sente bem após a ingestão de leite e laticínios, e desconfia que os sintomas estejam associados ao consumo destes alimentos, não hesite em procurar auxílio de profissional médico e de nutricionista, que irá solicitar os devidos exames comprobatórios e realizará o diagnóstico e que irá fornecer a adequada orientação alimentar, respectivamente. Você pode, sem saber, ser parte do alto percentual de indivíduos intolerantes à lactose no país.

Fontes:  Shimamoto ATH, Morais MB. Intolerância à lactose. In: Palma D, Escrivão MAMS, Oliveira FLC. Nutrição clínica na infância e adolescência. São Paulo: Manole; 2009. p. 455-61.
Kerpel-Fronios E, Jáni L, Fekete M. Disaccharide malabsorption in diferente types of malnutrition. Annales Pediatrici 1966; 206(4):245-257.
Mattar R, Monteiro MS, Villares CA, Santos AF, Silva JMK, Carrilho FJ. Frequency of LCT -13910C>T single nucleotide polymorphism associated with adult-type hypolactasia/lactase persistence among Brazilians of diferente ethnic groups. Nutr J. 2009; 8:46.

Mattar R, Mazo DFC. Intolerância à lactose: mudança de paradigmas com a biologia molecular. Rev Assoc Med Bras 2010; 56(2): 230-236.

Nutricionista – Sabrina Lentz Müller
CRN10 5927
Nut. Clínica – Nut. Funcional – Nutrigenômica – Emagrecimento e Metabolismo🔸❤️✝️🏃🏼‍♀️💪🏻#comaforadapiramide
Contato: 📧 sabrinalentz.nutri@gmail.com

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